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Atualizado: 21 de fev. de 2021



01 Carta

02 Fogo E Noite

03 Cenário

04 Já Te Perdias

05 Cada Vez Mais Aqui

06 Casca

07 Nada

08 Adormecido

09 Dá-me Ar

10 Fim

11 Por Trás Do Fim

12 Lados Errados


01 Carta


Não falei contigo

com medo que os montes e vales que me achas caíssem a teus pés...

Acredito e entendo

que a estabilidade lógica de quem não quer explodir

faça bem ao escudo que és...


Saudade é o ar

que vou sugando e aceitando como fruto de Verão

nos jardins do teu beijo...

Mas sinto que sabes que sentes também que num dia maior serás trapézio sem rede

a pairar sobre o mundo e em tudo o que vejo...


É que hoje acordei e lembrei-me que sou mago feiticeiro

Que a minha bola de cristal é folha de papel

Nela te pinto nua

numa chama minha e tua.


Desconfio que ainda não reparaste

que o teu destino foi inventado por gira-discos estragados aos quais te vais moldando

E todo o teu planeamento estratégico de sincronização do coração

são leis como paredes e tetos cujos vidros vais pisando


Anseio o dia em que acordares

por cima de todos os teus números

raízes quadradas de somas subtraídas sempre com a mesma solução

Podias deixar de fazer da vida um ciclo vicioso

harmonioso ao teu gesto mimado e à palma da tua mão


É que hoje acordei e lembrei-me que sou mago feiticeiro

Que a minha bola de cristal é folha de papel

Nela te pinto nua

numa chama minha e tua.


Desculpa se te fiz fogo e noite sem pedir autorização por escrito ao sindicato dos Deuses...

mas não fui eu que te escolhi.

Desculpa se te usei como refúgio dos meus sentidos

pedaço de silêncios perdidos que voltei a encontrar em ti...


É que hoje acordei e lembrei-me

Que sou mago feiticeiro...


... nela te pinto nua, nua

Numa chama minha e tua.

Numa chama minha e tua.


Ainda magoas alguém

O tiro passou-me ao lado

Ainda magoas alguém

Se não te deste a ninguém magoaste alguém

A mim... passou-me ao lado.

02 Fogo e Noite


Aconteceu...

e por me teres feito cego

recordo o sabor da tua pele

e o calor de uma tela

que pintámos sem pensar.

Ninguém perdeu,

e enquanto o ar foi cego despidos de passados

talvez de lados errados conseguiste-me encontrar.


Foi dança

foram corpos de aço entre trastes de guitarras

que esqueceram amarras

e se amaram sem mostrar.

Foi fogo que nos encontrou sozinhos

queimou a noite em volta

Presos entre chama à solta, presos feitos para soltar


Estava escrito

E o mundo só quis virar

a página que um dia se fez pesada


E o suor

que escorria no ar

no calor dos teus lábios inocentes mas sábios... no segredo do luar.

Não vai acabar

Vamos ser sempre paixão

Vamos ter sempre o olhar onde não há ninguém

Dei-te mais...! Valeu a pena voar


Estava escrito

E a noite veio acordar

a guerra de sentidos travada num céu


Nem por um segundo largo a mão da perfeição do teu desenho

e do teu gesto no meu...

foi como um sopro estranho...

...e aconteceu...


És noite em mim,

És fogo em mim.

És noite em mim.


03 Cenário


Noite é querer

é poder

é disfarce

é deixar para trás

e largar


Escuro é esconder

é guardar

é um livro esquecido

e papel para escrever


Há uma janela no rio

Há um monte a tapar

Há vento que entra frio

e tu a olhar


Mais uma carta rendida

num cenário que manda dançar

Mais uma dança perdida

e a noite só para lembrar

Que é mais uma carta rendida

num cenário que manda dançar

Mais uma dança perdida

e a noite só para lembrar


Festa é gritar

é ganhar

é correr

é fugir demais

...fugir demais


Há uma janela no rio

Há um monte a tapar

Há vento que entra frio

e tu a olhar


Mais uma carta rendida

num cenário que manda dançar

Mais uma dança perdida

e a noite só para lembrar

Que é mais uma carta rendida

num cenário que manda dançar

Mais uma dança perdida

e a noite só para lembrar


Noite é poder

é querer

é chorar em teus braços

teus olhos

teus traços

teus lábios

meus passos

Em ti eu acabo

Meu fado é o teu fado

Meu fado é o teu fado

Tenta parar!


Mais uma carta rendida

num cenário que manda dançar

Mais uma dança perdida

e a noite só para lembrar

Que é mais uma carta rendida

num cenário que manda dançar

Mais uma dança perdida

e a noite só para lembrar


04 Já Te Perdias


Talvez um dia assim

Talvez um sonho a mais


Talvez pensar andar

Talvez pense acordar


Já te perdias

Foi mais um dia assim!

Se queres ficar aí...


Vai ficando virado para o céu

Vai deixando o tempo passar

Vai trincando o que te dão para comer

Talvez vá o mundo fluir


Para quê pisar sinais

Porquê largar razões


Talvez sopre o vento a favor

Talvez mande tudo para o ar...!!


Já te perdias

Foi mais um dia assim!

És do lado mau...


Vai ficando virado para o céu

Vai deixando o tempo passar

Vai trincando o que te dão para comer

Talvez vá o mundo fluir


Só mais um dia assim…


05 Cada Vez Mais Aqui


Queres lutar com quem?

Para doer aonde?

Para ser o quê?

Achas que ninguém vê?


E para quê fingir?

Porquê mentir e remar na dor?

Achas que ninguém vê?


Também eu queria parar...

chorar

cair

para me levantar,

para te puxar

te fazer sorrir... não voltar a cair


Não me olhes assim!

Continuo a ser quem fui.

Cada vez mais aqui... não dances tão longe

que eu já te vi


Também eu queria parar...

chorar

cair

para me levantar,

para te puxar

te fazer sorrir... não voltar a cair


06 Casca


Continuamos a tratar da casca

Continuamos a moldar a casca

Continuamos a remar de costas

e a provar águas quase mortas

e a viver ruas já pisadas

e a levar pedras já usadas

num saco meio roto

num saco meio morto


Tentamos não manchar a casca

para fazer brilhar a casca

tentamos não parar de costas

tentamos não falhar respostas

Que nunca nos vejam de fora

é para nós que o mundo adora

passos de dança no chão

É para nós que os olhos olham.


Casca é tempo que dói

É janela fechada que estilhaça quando se olha para trás..

Vento é o que bate na cara

é só largar a casca

Ninguém olha para trás-


Tentamos disfarçar demónios

Por medo desviamos olhos

Por fuga apagamos fogos

Por escudos renascemos novos

Sem rasto esquecemos lábios

altivos, rastejamos, sábios

cada vez mais fundo

no buraco do mundo


Com força agarra-se a casca

que é só o que nos resta

que o mastro derreteu

mais tudo encolheu

Quisemos testar barreiras

e construímos teias

difíceis de romper

e aqui ficamos presos

na...


Casca é tempo que dói

é janela fechada que estilhaça

quando se olha para trás..

Vento é o que bate na cara

é só largar a casca!!

Ninguém olha para trás!



07 Nada


Vem rastejar, que te faz bem!


Vem rastejar, que te faz bem!

Implora porquês que eu não vou responder

Geme a chorar, que te faz bem,

Sangra o teu mundo só para eu ver


Afoga-te em tudo o que não queres ter,

que é só o que te vou mostrar

Vou fazer-te só o que não queres ser,

e vais gostar...


Quero-te assim...


Sacrifica o teu ar, que te faz bem,

Sufoca entre panos vestidos de azul

Tortura os teus olhos para veres bem,

que arranhas a voz em tosses sem som.


Afoga-te em águas e cores de lua

Sente o céu quebrar!

Desfaço-te em tudo o que é teu

e vais-me amar...


Quero-te... assim

Só para mim

Quero-te... assim

Só para mim


Só quando o sol te comer a pele

e o luar te roer a alma

na lama que te arranca as asas.

Quando fores ave amarrada

vais voar no meu céu negro

vais ser nada...nada...nada...nada...


Vem rastejar, que te faz bem,

Sangra o teu mundo, que te faz bem!

08 Adormecido


No cenário da tua vida

aclamas noites alucinantes

de gentes estonteantes

que são tanto como tu


No teatro do teu olhar

há quem note que a coragem

não passa de uma miragem

com preguiça de gritar


No repetir do teu mostrar

inventaste uma história

de que em ti não há memória

porque sabes que não é tua


Houve alguém que te conheceu

que te faz tremer ao passar

porque nunca a deixaste de amar...


Continuas a ensaiar

a conveniência do sorriso

o planear do improviso

que te faz sentir maior


No artifício dos teus gestos

pensas abraçar o mundo

quando nem por um segundo

te abraças a ti mesmo


E assim vais vivendo

e assim andando aí

e assim perdendo em ti

tudo aquilo que nunca foste


Houve alguém que te conheceu

que te faz tremer ao passar

porque nunca a deixaste de amar


Quando um dia acordares

numa noite sem mentira

e te vires onde não estás

vais querer voltar para trás.


09 Dá-me Ar


Dá-me ar

Dá-me espaço para respirar

Dá-me tempo para sofrer

Quero alcoól para comer

Quero um muro para espancar

Até doer...


Dá-me ar

Quero vento para tentar

Quero luz só para me ver

Quero ferro para trincar

Quero olhar de frente o sol

Até queimar...


Dá-me ar...


Quero mais

Quero um trono para perder

Quero um quarto para gritar

Quero gente para roer

Quero um mundo para puxar

Até morrer...


Dá-me mais

Quero terra para comer

Quero Deuses para lutar

que o mais fácil é perder

que o difícil é pensar

em acordar


Dá-me ar...


Dou-te cor

Dou-te vidas para cantar

Dou-te raiva para dançar por cima do que é meu

Dá-me ar.


10 Fim


Neste infinito fim que nos alcançou

guardo uma lágrima vinda do fundo,

guardo um sorriso virado para o mundo,

guardo um sonho que nunca chegou


Na minha casa de paredes caídas

penduro espelhos cor de prata,

guardo reflexos do canto que mata,

guardo uma arca de rimas perdidas


Na praia deserta dos dias que passam

falo ao mar de coisas que vi

falo ao mar do que conheci...


No mundo onde tudo parece estar certo

guardo os defeitos que me atam ao chão

guardo muralhas feitas de cartão

guardo um olhar que parecia tão perto


Para o país do esquecer o nunca nascido

levo a espada e a armadura de ferro,

levo o escudo e o cavalo negro,

levo-te a ti para sempre comigo


Na praia deserta dos dias que passam

Falo ao mar de coisas que vi

Falo ao mar do que nunca perdi.


11 Por Trás Do Fim


Por trás do fim,

por trás de nós,

por trás de ti

estamos só no que o dia quis deixar


Mais um tiro que marcou

mais um grito que ficou,

põe a tempo a girar


Só queria estar bem aqui

Por acabar vou querer ficar


Para quê ser mais alguém

Para quê fingir papéis

se não vou viver de cor


Que é tão bom deixar andar,

deixar o tempo nos levar,

Já não sei viver de cor...


Só queria estar bem aqui

Por acabar vou querer ficar


Já dançamos demais

Já fugimos demais

Já perdemos demais

e quis parar

Restou a saudade de ser

demais.


12 Lados Errados


Largaram-me a mil metros do chão

Largaram-me porque me agarrei

numa alucinação de vida

que me enchia o coração

e que agora vejo perdida

num cair que já não sei


Largaram-me a mil metros do chão

Reparo o sol que se afasta no ar

Rasgo caminho onde o vento dormia

Adormeço sentidos no meu furacão

E enquanto sol anuncia o dia

sinto o meu corpo, desamparado, deslizar...


Perdi-te do lado errado do coração

Eras tu o meu chão...


Enquanto caía a terra rachou

e eu via a queda ainda mais funda

Ao meu lado passava tudo o que passei

comigo a miragem que nada mudou

do voo rasante que nem começou

do tempo apressado que nem reparei


Sinto os meus gestos flutuar, devagar

no último segredo antes do ódio

À minha frente um filme de aves sem voz

e quando as ouvi resolvi gostar

Quando as senti fiquei a amar

ter tentado subir ao cimo de nós


Amei-te do lado errado do coração

Eras tu o meu chão...


Não sei ao que chamam lados do coração

Mas és tu o meu chão...

és tu o meu chão…



#tiagobettencourt #toranja #esquissos

Atualizado: 21 de fev. de 2021


01 Outro Mundo

02 Laços

03 Ensaio

04 Música de Filme

05 Ciclo

06 Sangue que Ficou

07 Quebramos os Dois

08 Só Eu Sei Ver

09 Restos

10 Doce no Chão

11 Copo Vazio

12 Confiar

13 Tempos Adversos

14 Contos


01 Outro Mundo


Queres-te a ti

A subir

Sem parar


Queres comer

Queres roer

Queres ganhar


À frente há sempre a razão


Podíamos tentar viver noutro mundo onde fosse fácil deixar para trás...

estamos juntos mas tão pequenos e tudo maior do que nós!!


Queres amar

Sem sofrer

Sem cair


Queres vender

Queres comprar

Queres fugir


Onde é que vai o coração?


Podíamos tentar fazer deste mundo uma espécie de sítio melhor...

estamos juntos mas tão pequenos e é tudo maior do que nós,

tudo maior do que nós!


O povo quer é cantar

O povo quer é dançar

O povo quer é saber

o que nao ha para fazer...


O povo quer é olhar

O povo quer comentar

O povo quer criticar

quem se tenta mexer...


Farto do tempo

Pedaços de gente

a andar por aí...


Farto do escuro

Sou resto de sol

farto de mim.



02 Laços


Andamos em voltas rectas na mesma esfera,

onde ao menos nos vemos porque o fumo passou


E a chuva no chão revela os olhos por trás

Há que levar o restolho do que o tempo queimou


Tens fios de mais a prender-te as cordas

mas podes vir amanhã acreditar no mesmo deus


Tens riscos de mais a estragar-me o quadro.

Se queres vir amanhã acreditar no mesmo deus,


devolve-me os laços, meu amor


Andamos em voltas rectas na mesma esfera

Mas podes vir amanhã,

se queres vir amanhã,

podes vir amanhã


Tens riscos de mais a estragar-me a pedra

Mas se vieres sem corpo à procura de luz,


Devolve-me os laços, meu amor

Meu amor


03 Ensaio


Não vês a agonia a escorrer nas paredes

As portas não param de ranger

É como um corte que entra no tímpano

Não aguento o barulho de dentro

Já não estou só!

Já não estou só eu a ouvir...

Já anda nas ruas!

Já comentam por aí!

Qualquer coisa não está bem...

Fala-se demasiado alto para quem está tão longe...

Fala-se demasiado alto para quem está tão longe...

Mas não tinha que haver pedrada alguém levou por arrasto.

Mas não tinha que haver pedrada alguém levou por arrasto.


A luz continua presa ao tecto

Por mais que se tente tirar

está alta de mais

ou encandeia os olhos

ou queima quando se toca

parece que sabe queimar

Parece que não tenho janelas

Não entra ar aqui!

Não entra ar aqui!

Tira a mão quente dos olhos

Tira o frio da frente

Já tenho tão pouca gente para me encontrar


Desata-me os olhos, desata-me a cara,

desata o teu corpo dentro do meu

Tira-me a voz que puseste no tempo

que não está a querer desistir

de pisar os membros no chão

de arrancar os braços no tecto

Tira-me de mim, vá tira-me de mim

Transforma o fraco em coisa forte porque tudo se renova...!

Transforma o fraco em coisa forte porque tudo se renova...!

Transforma o fraco em coisa forte porque tudo se renova...!

Transforma o fraco em coisa forte porque tudo se renova…!


04 Música de Filme


Dentro de mim

Por dentro de mim


É pena quase não poder ficar

És quente quando a luz te traz

Quase te vi amor

Quase nasci sem ti

Quase morri


Dentro de mim

Ficas dentro de mim

Por dentro de mim

Estás dentro de mim


Silêncio, lua casa, chão

És sitio onde as mãos se dão

Quase larguei a dôr

Quase perdi

Quase morri


Dentro de mim

Estás dentro de mim

Por dentro de mim

Ficas dentro de mim


Sempre sou mais um homem,

mais humano,

mais um fraco,

sempre sou mais um braço,

mais um corpo,

mais um grito

sempre..

Dança em mim!

Mundo, vida e fim!

Dorme aqui

Dentro de mim..


É pena quase não poder ficar

no sítio onde as mãos se dão

Quase fugi amor

Quase não vi

Vamos embora daqui

para dentro de mim


05 Ciclo


Vem quente

à solta

forte

vem bem


Mexer

provar

focar

também


Vem gente

à solta

forte

comer


Vazio

sem cor

para quem quiser


Vem quente

à solta

forte

vem bem


Mexer

provar

focar

também


A gente

à solta

à sorte

quer estar


sem frio

sem dor

para respirar


Mas tudo vem atrás

Tudo vem atrás

Tudo vem atrás


Estou fraco

humano

a derreter


Há gente

à chuva

sem sair


Vem quente

à solta

forte

sem ver


Que gente

à chuva

quer nascer


Mas tudo vem atrás

Tudo vem atrás

Tudo vem atrás


Se a mão estende a mão, desenha o corpo, faz viver

O verbo desfaz a cor a mais, e a dor é só por ver renascer.


06 Sangue que Ficou


Vê que o tempo não parou

Vê que o tempo não parou

Vê o rasto que deixou

Vê o rasto que deixou

por trás de ti

no meio de nós

Vê o sangue que ficou


Quando o fumo nos queimar

Quando o fumo nos queimar

fica o medo de parar

fica o medo de parar

por trás do fim

no meio de nós

Vê o sangue que ficou


Quando o tempo deixar

vai haver mais paz

vai haver alguém para ter, para dizer... ficar.


07 Quebramos os Dois


Era eu a convencer-te de que gostas de mim,

Tu a convenceres-te de que não é bem assim.

Era eu a mostrar-te o meu lado mais puro,

Tu a argumentares os teus inevitáveis.


Eras tu a dançares em pleno dia,

e eu encostado como quem não vê.

Eras tu a falar para esconder a saudade,

e eu a esconder-me do que não se dizia.


Afinal, quebramos os dois


Desviando os olhos por sentir a verdade,

juravas a certeza da mentira,

mas sem queimar de mais,

sem querer extinguir o que já se sabia.


Eu fugia do toque como do cheiro,

por saber que era o fim da roupa vestida,

que inventara no meio do escuro onde estava,

por ver o desespero na cor que trazias.


Afinal, quebramos os dois


Era eu a despir-te do que era pequeno,

Tu a puxares-me para um lado mais perto,

onde se contam histórias que nos atam

ao silêncio dos lábios que nos mata.


Eras tu a ficar por não saberes partir,

e eu a rezar para que desaparecesses,

era eu a rezar para que ficasses,

tu a ficares enquanto saías.

Não nos tocamos enquanto saías,

Não nos tocamos enquanto saímos,

Não nos tocamos e vamos fugindo,

porque quebramos como crianças.


Afinal... quebramos os dois afinal


É quase pecado que se deixa,

quase pecado que se ignora.



08 Só Eu Sei Ver


Desfaz-se o tempo em rotinas e vontades

em projectos e verdades

em desgostos que se alastram

em vestígios distorcidos

de nascentes que encontramos

E é sempre quando seca que

tudo se tem que se agarrar

a tudo o que faz fugir

e a verdade passa a estar

no fundo dum copo cheio do que se quer ser

e a beata no chão que faz os olhos arder

é a nova moda das crianças que ainda estão a aprender

como têm que estar e andar e beber

e dançar e comer e falar e ouvir

e sentar e sorrir pra saber existir


Só eu sei ver o sol nascer

Só eu sei ver o sol nascer


Desfaço-me em pedaços, em retratos

em mentiras que trocámos e abraçámos

sim, fugimos mas voltámos

e o que presta,

é o que esta em nós.

Num fim de festa onde

todos sabemos quem somos

ou quem não se quer lembrar

ou quem precisa de estar

perdido noutro sonho

a mesma noite, o mesmo copo,

o mesmo corpo, a mesma sede que não sabe secar

Onde se encontra sem se procurar

Onde se dança o que estiver a tocar

Muito fumo muito fogo muito escuro

onde somos o que queremos

Quase somos o que queremos

Quase fomos o que queremos


Só eu sei ver o sol nascer

Só eu sei ver o sol nascer


Quase fomos o que queremos

Quase somos o que queremos

Quase fomos o que queremos

Quase somos o…



09 Restos


Hoje esqueci-me que ás vezes também podes ver

Às vezes também sabes ter noção

Hoje vens tu ver restos de mim no chão


Hoje esqueci-me que sabia perder,

que me tinhas na mão

Hoje vens tu perdida no mesmo chão


Quem não quis saber

Tirou a mão e partiu

Deu o que não tinha para levar

Fechei o corpo e fugi


Hoje vens tu

E eu já sei de cor

o travo do teu licor

e os restos de mim no chão


Quem não quis saber

Tirou a mão e partiu

Deu o que não tinha para levar

Fechei o corpo e fugi


...mas há sempre mais um dia

e nunca vai parar.


Quem não quis saber

Tirou a mão e partiu

Deu o que não tinha para levar

Fechei o corpo e fugi



10 Doce no Chão


Quis ficar com mais um doce na mão

quando tudo caiu no chão,

quase sem cor, gasto da dor e do passo do tempo

Mais a chuva a cair e os restos de ti por baixo do chão


Tentei apanhar mais um doce do chão

para ver o que ficou na mão

onde tudo chocou, desfeito em palavras e imagens de cor

que podem sorrir mas que sabem morrer

por baixo do chão


Quis saber o que foi tão escuro assim

que em nós só ficou a dor...e amor.


Por andar por sair por gritar

sem saber a hora de partir ou ficar


Quis ficar com mais um doce na mão quando tudo caiu no chão...



11 Copo Vazio


Pego no copo vazio que enche o tempo

e invento que há luz.


Não vês o copo vazio por onde fujo

sem ver?


Quem quer sai!

Quem quer sai!

Lá fora a dor é maior e ninguém quer sair...


Fico no copo vazio onde me lanço,

danço em paz.

Sou como um copo vazio,

ando num resto apagado,

sou como um rasto quebrado,

um rato,

um corpo fechado,

parou!


Quem quer sai!

Quem quer sai!

Lá fora a dor é real e ninguém quer sair...


Lá fora a dor é maior e ninguém quer cair...

Só quem quer.


12 Confiar


Por seres do céu

Por ser para ti.

talvez o sol te venha ver

Por ser o que eu também senti

o tempo é melhor para nós.


Talvez confiar…

Talvez confiar e esperar um dia sem dor.


Por ser um véu entre ti

talvez nunca vás mudar

Por nunca querer esquecer um fim

que teimas lembrar.


Não fui!

Não disse!

Não quis saber de restos de canções de amor.

que restam em refrões de cor

que teimas que te prendam


Ou talvez confiar!

Talvez confiar…

Talvez confiar e esperar um dia sem dor.



13 Tempos Adversos


Fui eu

Vem ver

Fui eu

Vem ver

Há vidros no chão

Há folhas no chão

Há livros no chão

Lutamos em vão


Claro que temos que andar

somos tempos adversos que puxam para trás

É claro que temos que ver a estrada,

que um dia a história acaba.


Quem foi?

Quem viu?

Quem foi?

Quem viu?

Os vidros no chão

são restos de nós

Os vidros no chão

perdem a voz.


Claro que vamos andar

entre tempos adversos que puxam para trás

É claro que temos que ver a estrada

que um dia a história acaba...


...Que um dia a história acaba.


14 Contos


Não posso ser só eu a dar sentido à razão

vais ter que vir tu e arrancar-me a escuridão

É que ás vezes quem vence fica sempre a perder

Vamos deixar de usar armas no que queremos ser.


Mas tens que escrever quem vês em mim

Vais ter que contar quanto dás por nós

sem mais contos de embalar.


Não podes ser só tu a dar sentido ao buraco

se não te queres lembrar do que sentiste no fundo

Agora tens que vir tu saciar-me os segredos

porque é fácil de mais o que me queres vender.


Mas tens que escrever quem vês em mim

Vais ter que contar quanto dás por nós

sem mais contos de embalar.


Mas tens que escrever quem vês em mim

Vais ter que contar quanto dás por nós

Vais ter que despir o que tenho a mais

por ver sempre tudo a desconstruir

por cima da raiz que nunca sai

que volta a a crescer por não parar

que volta a crescer por ser maior

Voltou a crescer sem avisar

sem mais contos de embalar




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